Notícias Manguinhos

A Hora Veterinária
ano 26, nº 154, novembro / dezembro - 2006

História da Medicina Veterinária


1906 – 2006
Centenário da fabricação da primeira vacina de uso veterinário no Brasil:
A vacina contra o Carbúnculo Sintomático ou Peste da Manqueira


Na historiografia das pandemias e panzootias infecto-contagiosas que, a partir do século XVIII, dizimaram número incalculável de seres humanos e animais em todos os continentes, vamos encontrar alguns registros de acontecimentos inusitados e surpreendentes. Antes mesmo das importantes descobertas de Robert Koch (1843 – 1910) e Louis Pasteur (1822 – 1895), que deram as bases científicas para o nascimento da Microbiologia e Imunologia, as primeiras tentativas no sentido de se estabelecer métodos de prevenção contra as enfermidades transmissíveis foram feitas por leigos. Já no século X depois de Cristo, alguns povos orientais praticavam a chamada “variolização”, através da inoculação na pele de pessoa sadia, de material extraído das pústulas de indivíduo infectado pela varíola, desenvolvendo a doença em caráter bem mais brando do que através do contágio natural.

Em 1712, a inglesa Mary Pierrepont casa-se com o deputado Edward Wortly Montagu que, tendo sido nomeado embaixador na Turquia, fixa residência na então Capital, Cosntantinopla, atual Istambul. Inteligente, culta e com mente intuitiva, “Lady Montagu” o tomar conhecimento do processo de variolização na Turquia, permitiu que a mesma fosse feita em seus dois filhos, com grande sucesso. Ao regressar à Inglaterra, em 1721, relatou o fato a alguns médicos que passaram a adotar o método. No Brasil, a vacinação anti-variolítica foi introduzida ainda no século XVIII, mas praticada de maneira irregular e rejeitada pela população. Em 1811, o príncipe regente D. João determinou a importação de material vacinogênico contra a varíola, vacinando uma significativa parcela da população do Rio de Janeiro. Diversos surtos epidêmicos ocorreram no transcurso do século XIX, mas a vacinação anti-variolítica só se tornou efetiva no início do século XX, com a campanha iniciada por Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro em 1904, culminando com a intempestiva e inoportuna reação da população carioca contra a vacinação, sendo apelidada de “Guerra da Vacina”.

Em 1905, pecuaristas mineiros, apreensivos com os prejuízos que a Peste da Manqueira vinha causando em seus rebanhos, solicitaram ao Instituto Oswaldo Cruz, atual FIOCRUZ - Fundação Oswaldo Cruz, que desenvolvesse uma vacina para combater a terrível doença, que dizimava mais de 40% dos bezerros no Estado de Minas Gerais. Esta epizootia também era comum em outros estados brasileiros bem como em vários países da América do Sul. Para estudar o desenvolvimento de uma vacina, Oswaldo Cruz inicialmente entregou a tarefa para Ezequiel Dias e Rocha Lima. Todavia, foi o médico paulista ALCIDES GODOY, nascido em Campinas em 7 de Janeiro de 1880 e formado pela faculdade Nacional de Medicina do Rio de Janeiro, o responsável, no ano de 1906, pelo desenvolvimento e elaboração da vacina contra o Carbúnculo Sintomático, vulgarmente conhecido pelos pecuaristas como “Peste da Manqueira”, “Mal do Ano” e “Quarto Inchado”. Este acontecimento é considerado como um dos grandes marcos na história da medicina veterinária brasileira.

A originalidade do processo de Godoy residia na utilização de um meio de cultura especial para bactérias anaeróbicas, no qual a glicose desempenhava um papel preponderante. Com tal meio de cultura, obteve uma cepa diferenciada de bactérias de virulência atenuada, permitindo o uso da vacina com o germe vivo. Dois centímetros da vacina (2 mL) eram suficientes para imunizar o animal pelo resto de sua vida. Foi um processo científico de total êxito empregado na atenuação de microorganismo causador de carbúnculo sintomático: o Clostridium chauvoei. Após o registro da patente da vacina (Carta Patente nº 5566, publicada no Diário Oficial da União no dia 6 de Dezembro de 1908), Alcides Godoy lavrou em cartório uma escritura da cessão de direitos, transferindo a patente e a sua fabricação para o Instituto Oswaldo Cruz, com a cláusula de reverter em favor de suas atividades científicas a exploração industrial do produto, sob pena de ficar sem efeito a concessão! Tal atitude propiciou o fortalecimento da autonomia do Instituto Manguinhos, permitindo-lhe gerir recursos e que seriam consideráveis, sem se submeter às rígidas determinações que regulamentavam a aplicação das verbas votadas pelo Congresso Nacional. A providencial “verba da manqueira” teve importância vital na manutenção do Instituto Oswaldo cruz. Com esses recursos, o Instituto implementou uma intensa atividade de educação sanitária animal visando disseminar o uso da vacina na maioria das áreas de pecuária bovina. Em decorrência da crônica ineficiência da rede de distribuição estatal, Oswaldo Cruz chegou a organizar, em 1913, uma seção de “Propaganda da Vacina contra a Manqueira”, enviando um representante do Instituto que, naquele ano, percorreu todos os municípios do Rio Grande do Sul, fazendo demonstrações práticas do uso da vacina e nomeando agentes para sua venda na região.

Em 1919, em relatório remetido ao Ministério da Justiça, o diretor do Instituto Oswaldo Cruz fez a seguinte citação elogiosa: A peste da manqueira, para referir a conquista mais notável do Instituto em assuntos de veterinária, deixou de constituir, como o era, um obstáculo decisivo ao desenvolvimento da indústria pastoril em vastas regiões do Brasil, graças à descoberta do Dr. Alcides Godoy, chefe do serviço do Instituto, que no invento de uma vacina resolveu o problema da criação de bovídeos, tornando nulos os malefícios da peste da manqueira.

De 1906 à 1938, a vacina contra peste da manqueira tornou-se nacionalmente conhecida pelo seu grande poder de imunização dos bovinos contra o carbúnculo sintomático e a facilidade de transporte e manejo, pelo fato de serem armazenadas e usadas em temperatura ambiente. Neste mesmo período o Instituto produziu quase 50 milhões de doses de vacina anti-manqueira. No final da década de 1930, o Ministério da Agricultura tornou obrigatório o registro dos produtos veterinários comercializados no país e a vacina Manguinhos contra Peste da Manqueira foi então, registrada no dia 13 de Setembro de 1938, recebendo o registro nº 1, no livro 1, folha 1. Em 1939, Alcides Godoy e alguns outros pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz se desligaram do Instituto e fundaram a empresa Produtos Veterinários Manguinhos LTDA,. Tendo por objetivo a fabricação, comercialização, importação e exportação de produtos veterinários em todas as suas formas. Desde então, o Laboratório Manguinhos, hoje pertencente à moderna empresa BRAVET, vem investindo em pesquisa e tecnologia de novos produtos de uso veterinário tendo o privilégio de continuar produzindo a PRIMEIRA VACINA DE USO VETERINÁRIO desenvolvida e fabricada no Brasil pelo médico Alcides Godoy( 1880-1950).

 


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